Tradição celebra o nascimento de Jesus Cristo, responsável pela fé cristã que moldou Flores da Cunha e Nova Pádua
O Papai Noel é encantador. Basta ir na Praça da Bandeira para testemunhar o efeito acolhedor do bom velhinho durante as visitas diárias de crianças à Casa do Papai Noel e sua expectativa pelos presentes e a celebração da ceia de Natal. Dito isso, dezembro é época de lembrar um significado maior para a cultura brasileira, predominamente cristã. Afinal, no Brasil, utilizamos o calendário gregoriano para determinar os dias, meses e anos. E, assim como o Natal, este calendário é baseado no mesmo fato histórico: o nascimento de Jesus Cristo.
Criado em 1582 pelo Papa Gregório XIII, o calendário gregoriano foi desenvolvido para substituir o calendário juliano e ajustar as datas em relação às estações do ano. Para isso, foram estabelecidos os 12 meses do ano e a sua contagem “do tempo” foi iniciada pelo nascimento de Jesus, que passou a ser considerado o ano 1.
Assim foi criada uma divisão na linha do tempo, os chamados AC e DC na contagem dos anos: Antes de Cristo e Depois de Cristo. A professora de história Gissely Lovatto Vailatti destaca que o modelo foi aplicado no Brasil pelo país ser colônia de Portugal, que seguia o modelo.
— O Brasil precisou adotar este calendário no mesmo ano do decreto de sua criação. Mesmo com a presença ainda predominante de diversos povos originários que desconheciam a relevância da Igreja Católica no mundo, esse território era colônia de Portugal, nação predominantemente católica e, como tal, oficialmente passou a ser regido por ele. Essa decisão impactou, como em outros lugares, toda a organização social e temporal, das festividades ao alinhamento cultural e político com as práticas europeias da época e vivenciadas até o presente — explica a professora.
O Natal, por sua vez, tem uma história mais complexa do que se imagina. A origem do nome vem do latim “natalis” que significa nascer. Esse nascimento é o mesmo que gerou um marco na linha temporal do calendário gregoriano: o nascimento do menino Jesus.
— Jesus Cristo é o cumprimento das profecias, o filho do Deus único, o salvador, que deu origem ao cristianismo. Por isso seu nascimento é uma data muito importante. Foi estabelecida por estudiosos que buscavam determinar com a maior precisão possível quando este evento teria acontecido. Há estudos que apontam que o fato possa ter ocorrido alguns anos antes do início da contagem do tempo pelo calendário gregoriano. Foi também uma tentativa de cristianizar festivais pagãos que aconteciam no mesmo período, a exemplo do “Sol Invicto”. Por isso, foi adotada a data de 25 de dezembro, que tradicionalmente já havia se consolidado como o dia do Natal, para refletir sobre a importância do nascimento de Cristo para a cultura ocidental. Dessa forma, não se pode dizer que é apenas uma questão cronológica, pois é um marco cristão que pontua a vinda de Jesus ao mundo, envolve tanto aspectos históricos e culturais, quanto religiosos — enfatiza Gissely.
Foi em dezembro?
A data foi escolhida para representar o nascimento de Jesus pelo papa Julius I, no século IV, após a consolidação do Cristianismo na Europa. Embora celebrada em dezembro, não há nenhum registro histórico que comprove o nascimento de Jesus na data. A Bíblia, livro usado como base da fé cristã, não revela qual o dia que Jesus nasceu. As primeiras comunidades cristãs, formadas ainda no primeiro século, não celebravam a data. E a teoria mais aceita pela comunidade histórica e teóloga é que Jesus não nasceu em dezembro. Esta é a crença do pastor sênior da Igreja Ministério da Reconciliação, apóstolo Katalin Salles.
— Nós somos ocidentais. E como tais, somos quase totalmente alheios a outras culturas. No Oriente Médio, eles seguem o calendário lunar. Logo, Jesus não nasceu em dezembro, e sim, provavelmente, em outubro, na época onde os hebreus antigos celebravam a chamada Festa das Tendas, ou dos Tabernáculos. O nome faz alusão ao nascimento do filho de Deus que “tabernaculou” e fez morada entre nós. Esta festa era conhecida como a festa do Messias. Jesus é o Messias rejeitado por Israel, mas que foi aceito por nós, que éramos pagãos e cheios de sincretismo e misticismo religioso. Nós, ocidentais, não temos a percepção de tempo como os nativos do Oriente Médio têm. Foi pensado, pela Igreja Romana, que em algum momento deveria-se, sim, celebrar o nascimento de Cristo, o que é nobre e louvável. Jesus nasceu e isto é fato e é verdade. Mas não em 25 de dezembro. Provavelmente em outubro de nosso calendário — comenta Salles.
Acreditando ou não na fé cristã, Jesus foi o responsável por dividir a história em antes e depois dele. Embora seja uma simbologia, a data carrega consigo um clima de esperança e renovo.
— Esta data é oportuna para promover o testemunho de Cristo como salvador de toda a humanidade através do seu sacrifício na cruz. Afinal, a verdade é que o que nos salvou não foi o nascimento do filho de Deus, mas a morte dele na cruz — aponta o pastor do Ministério da Reconciliação.