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Flores da Cunha se despede das irmãs de São José

Com a saída das últimas freiras, comunidade fica sem representação da congregação após 124 anos de história
Irmãs recebem homenagem da comunidade em missa de despedida. (Foto: Lucas Brito)

As badalas do sino tiveram um significado diferente no fim da tarde do último domingo (8), na Igreja Matriz de Flores da Cunha. Era uma despedida. A comunidade, reunida para a missa das 18h, viveu um momento carregado de memória e emoção. Após 124 anos de atuação no município, a Congregação das Irmãs de São José se despediu da Terra do Galo.

A ausência já é sentida. As irmãs Terezinha Rizzon, 84 anos, e Pierina Zandoná, 88, últimas representantes da Congregação no município, seguiram novos caminhos. A primeira foi transferida para Caxias do Sul, e a segunda, para Garibaldi.

— Despedida sempre dói, ao menos para mim doeu. Foi uma despedida acompanhada de muitos gestos carinho, de gratidão e reconhecimento por parte dos freis e das lideranças da Paróquia. Foi também um momento de ação de graças pela presença das Irmãs de São José pelo período de 124 anos. O que motivou nossa saída de Flores da Cunha foi a nossa situação de Província. Diante de tantos apelos, (ela) se obriga a fechar alguma missão para reforçar — conta a irmã Terezinha.

Segundo o pároco frei Jadir Segala, não restou nenhuma religiosa da congregação no município.

— Deixam um vazio muito grande dentro da nossa paróquia, uma dor no coração, mas ao mesmo tempo uma compreensão de que faz parte, a missão anda, vai para frente e as irmãs precisam delas em outras áreas para fortalecimento — disse o emocionado frei.

O momento também foi citado durante a sessão ordinária da Câmara de Vereadores da última segunda-feira (9), pelo vereador suplente Oscar Francescatto (PL).

— Um ciclo de 124 anos. Em 1901, chegava em Flores da Cunha o convento das irmãs São José, onde fundaram o tradicional colégio São José. A igreja estava lotada, lamentamos, mas o ciclo acabou. Fica o nosso agradecimento para essas irmãs que fizeram com que o colégio São José fosse hoje uma das principais referências. Todo mundo queria colocar seus filhos estudar lá porque teve aquela marca religiosa, aquela credibilidade. Foi um dia bem emocionante, elas se despediram, teve muitas homenagens — descreve Francescatto.

 

Missa na Igreja Matriz no último domingo (8) marcou o fim da representação da congregação das irmãs de São José no município. (Foto: Lucas Brito)

Irmãs missionárias

A despedida foi carregada de homenagens. O médico Adelir Bolzzoni entregou aos presentes um terço com uma oração de São José, um gesto simbólico que se somou às palavras proferidas pelas próprias irmãs e pelos freis Jadir Segala e Vandrigo Zacchi. A comoção, segundo Francescatto tomou conta da celebração.

— Elas tinham uma doação, uma entrega muito grande à comunidade e à sociedade. As irmãs de São José têm essa marca de serem irmãs missionárias. Vão fazer muita falta na nossa comunidade paroquial pelo seu jeito de ser, pelo seu testemunho, pela maneira de viver, mas acima de tudo pela missão que elas desenvolviam na liturgia e também juntamente aos doentes no hospital (Nossa Senhora de Fátima). Desejo a elas que sejam muito felizes, que onde elas vão desenvolver o trabalho delas, sejam bem acolhidas e vivam o espírito de São José — afirma o frei Jadir.

A irmã Terezinha explica que em paralelo ao trabalho que realiza em Caxias do Sul tem a intenção de retornar a Terra do Galo pontualmente para seguir atuando na liturgia.

— Meu plano é de ajudar as irmãs doentes até que possa para que elas sintam-se missionárias também nessa fase da vida pela oração e pela aceitação das limitações. (Que) tenham uma vida feliz mesmo com fragilidades. (Também tenho planos de) voltar a Flores nas quintas-feiras e continuar a colaborar na elaboração da liturgia, mas tenho que esperar um pouco e ver com a comunidade daqui (Caxias do Sul) — contextualiza a freira.

Para além da fé, o momento trouxe ao debate a escassez no interesse pela vocação religiosa.

— Está complicado hoje um jovem para sair de casa e dizer ‘eu vou ser padre’ ou uma jovem dizer ‘eu vou ser freira’. Tomara que surja mais pessoas — comenta o vereador.

A religiosa conta que as irmãs mais jovens, que são poucas, precisam seguir atuando na escolas, nas missões além das fronteiras e nos hospitais e isso foi outro balizador para que Terezinha e Pierina se despedissem de Flores da Cunha.

— Nós em Flores da Cunhas estávamos em duas já com idade e o Conselho Provincial decidiu por bem encerrar a missão no município — conclui Terezinha.

 

 

Um legado espiritual e educacional

A missão começou há mais de um século. Em 1º de outubro de 1901, uma pequena caravana deixava a Casa Provincial, com destino a Nova Trento, hoje Flores da Cunha. A carta de Madre Margarida de Jesus, escrita à Superiora Geral, narra os detalhes da jornada.

— Partindo às 7 horas da manhã, chegávamos a Palmira pela uma hora da tarde, lugar já conhecido, onde descansamos um pouco e continuamos depois para Caxias, onde pernoitamos. Que alegria em nos rever após sete meses de separação. Uma refeição nos reuniu no refeitório: que bela família! Todos os membros formam um só coração e uma só alma com a veneranda Superiora Geral, porque nesse momento a distância desapareceu. A habilidade da Superiora de Caxias achou meio para nos hospedar a todas em sua casa provisória, onde descansamos muito bem. No dia seguinte, uma chuva torrencial impediu que partíssemos. Tendo cessado a chuva, retomamos nosso caminho e, pelas 3 horas atingimos a Capela mais próxima de Nova Trento, onde o sino badalava docemente, como para nos apresentar as boas-vindas. Não tendo sido avisada do atraso a população, desde a véspera, se movimentava para nos receber. Se excetuarmos o bimbalhar dos dois sinos, algumas explosões de foguetes e espoletas e o alegre entusiasmo da população do centro, chegamos a nossa residência sem pompa e sem esplendor — diz o trecho da carta.

Instaladas em um espaço modesto, foram acolhidas com o que havia de melhor entre os moradores, que segundo o relato histórico não eram ricos em bens, mas muito hospitaleiros. Assim começou a Escola São José, inaugurada dias depois, em 7 de outubro.

— Esses bons cristãos se consideravam os mais afortunados do Brasil, pois agora possuíam entre eles padres e irmãs — descreve a carta.

Ao longo das décadas, o Colégio São José formou gerações e se tornou um símbolo de excelência educacional, mas também de fé.

— Esses 124 anos de presença das irmãs de São José em Flores da Cunha deixou para nós uma grande marca. Primeiro a marca de uma vida religiosa ligada à comunidade, ao serviço, primeiramente das escolas, que foram elas que vieram para levar a educação aos jovens e às moças da nossa cidade. Também o cuidado que elas tinham com a caminhada pastoral junto à nossa paróquia — recorda o frei Jadir.

Segundo ele, a irmã Teresinha organizava a liturgia da paróquia. Já a irmã Pierina era presença constante no hospital, coordenando visitas, bênçãos e até missas para os enfermos.

— Nesse espaço por onde elas passaram hoje nós estamos garimpando pessoas para poder fazer e dar continuidade à missão que elas fizeram — lamenta o pároco.

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